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23 junho 2011

Português vs. Inglês



Exportar, exportar, exportar!
Exportar é a palavra chave nas noticias, nos jornais, nas discussões politicas.

Fazer aqui e vender lá fora.
Esta é uma parte significativa da solução para a nossa crise económica.

Somos portugueses, conhecidos pelo Fado e a saudade... E lembramos com saudosismo a época dos Descobrimentos, a época em que éramos grandes.
E éramos, éramos grandes exportadores. Íamos à Índia e ao Brasil buscar especiarias e ouro que exportávamos para a Europa toda!

Somos portugueses, somos cerca de 10 milhões.
O Brasil tem 180 milhões de pessoas. Os Estados Unidos 350 milhões. A União Europeia toda, 500 milhões de cidadãos. A Índia 1.000 milhões!

10 milhões de portugueses é pouco... é suficiente para testar, para desenvolver um produto, adaptá-lo às necessidades do cliente, desenvolver o design, os seus aspectos únicos. Mas é pouco para crescer, para ganhar escala e muito dinheiro.

Para vender muito, é preciso exportar!

Vender é satisfazer uma necessidade, é entregar uma solução.
E para o cliente entender a solução, tem de entender a linguagem que usamos para falar com ele.

Comunicar com os nossos clientes estrangeiros numa linguagem que eles entendem é a única solução!

Imaginem uma PME portuguesa. Produziu um software fantástico que pode gerir milhões de processos complexos em segundos. Em Portugal tem no máximo 10 clientes que precisam de um software assim, no resto do mundo centenas, milhares de clientes potenciais! Ou uma PME que produz sapatos, ou toalhas, ou loiça, ou roupa, ou software para a saúde, para carros....

10 milhões de clientes potenciais ou 500 milhões? Ou 1.000 milhões?

Uma PME, menos de 100 pessoas, se calhar umas 10, 15...

Imaginem essa empresa a esforçar-se por ter todos os materiais de comunicação em Português e em Inglês, e se calhar até em mais línguas, alemão, francês, chinês! Imaginem este pequeno grupo a traduzir tudo, o site, as apresentações, os documentos. Imaginem as horas de trabalho, o tempo que voa pela janela. E Imaginem o risco de nem a informação em português, nem a informação em língua nenhuma ficarem grande coisa porque o tempo fugiu, não deu para tudo...

Imaginem um freelancer, um consultor, vive das horas que trabalha. Tem décadas de experiencia, mestrados, formações. Fora de Portugal cobra 1000€ ao dia, aqui não consegue 300€ - em que língua deve estar o seu blog pessoal?

Mas há muitos países, há muitos idiomas.

A minha proposta é focar! Focar a atenção, energia e tempo numa só língua, na língua franca do nosso tempo. 

Uma língua franca é uma língua sistematicamente usada para facilitar a comunicação entre duas pessoas que não partilham uma língua mãe, ou em particular, quando a língua franca é um 3º idioma, diferente da língua mãe de ambos os interlocutores.

Sabem qual é? Durante os Descobrimentos era o Latim, agora é o inglês e nós, como cidadão devemos aceitar isso com naturalidade e comunicar com os nossos clientes, parceiros, investidores, apenas em inglês.

Decidir comunicar em Inglês é uma decisão estratégica, de apoio ao objectivo estratégico do país e ao objectivo estratégico de cada empresa ou freelancer de vender mais no estrangeiro. Esta decisão é independente da ligação emocional que temos pela nossa língua, pelo belíssimo e riquíssimo português.

Imaginem aquela PME a ter apenas um site em inglês, apenas uma apresentação institucional em inglês. Aquela informação pode viajar pelo mundo todo! Qualquer cliente a pode entender. Existem mais de 1400 milhões de pessoas que falam inglês. Inglês é a língua mais ensinada como 2ª língua no mundo. Alemães, os chineses, os indianos, os americanos, os belgas, os austríacos, todos vão entender a solução que a nossa PME lhes propõe, e todos vão ser potenciais clientes.

Podemos escolher!
Podemos escolher vender em Portugal, em Português, ou vender no mundo.
E podemos vender no mundo com pouco trabalho, apenas em inglês, de forma descomplicada.

Somos Portugueses, pensamos com o coração. Essa é uma característica maravilhosa que nos une a todos, somos amigos para a vida, leais e honestos.
Eu acredito que podemos mostrar estas e outras características ao mundo sem trair a nossa língua, simplesmente adoptando outra...

Decidi esta semana passar toda a minha comunicação online para inglês. Quero ser cidadã do mundo, quer que qualquer potencial cliente me entenda. Pelo que este será o meu último post em português.

Este é o meu convite, para uma pequena empresa ou associação, para um freelance, é demasiado difícil e dispendioso manter a sua comunicação institucional em duas ou mais línguas, por isso, a minha sugestão, o meu convite, é comunicar apenas em inglês!

21 fevereiro 2011

O lugar do outro



Filha, o meu marido e o meu Pai já chegaram?
Não Avó... o avô e o bisavô já morreram há tantos anos...

Filha! O meu marido, o Zé?! Ele saiu com o meu Pai!
Não, Avó... o avô e o bisavô... já morreram...

Filha! o meu marido e o meu Pai já chegaram?
Não avó, eles...

A minha avó tinha 94 anos quando tivemos esta conversa...
Os sintomas da demência que a consumiu nos últimos meses de vida eram muito fortes. Perguntava por familiares e amigos mortos há muito. E fazia-o repetidamente. Não é exagero dizer que podia perguntar 15, 20 vezes por alguém, sempre preocupada, cada vez mais nervosa.

Dei-me conta, na vigésima pergunta, que lhe respondia quase sempre com um NÃO! Não, avó. Não, Avó! Já lhe disse que várias vezes...

“Se eu soubesse a resposta não perguntava outra vez!”

Se a avó soubesse... Se a avó soubesse a resposta não perguntava outra vez...
E de repente eu soube a resposta!
Entendi: no mundo da minha avó, o meu avô, o meu bisavô estavam vivos e a minha avó não sabia onde andavam.
O que a mim parecia estranho, impossível, até bizarro, para Ela era a absoluta realidade.

Um dia aprendi que há 3 formas de ver o mundo.
A minha, a do outro, e a de quem está de fora. i.e. a 1ª, a 2ª e a 3ª posição de perceber o mundo, ou posição perceptual.

Uma posição perceptual é uma forma de dar atenção ao mundo.

Na 1ª posição, eu sou eu. Olho para o mundo e vejo-o segundo a minha experiencia, a minha memoria, as minhas sensações do que é bom e do que é mau.

Na minha história, usando a 1ª posição perceptual eu sabia que o meu avô morreu há quase vinte anos, e o meu bisavô há uns 40. Não fazia sentido nenhum perguntar por eles, por isso a cada pergunta eu respondia Não.

Mas a minha avó não tinha naquela altura a mesma visão do mundo do que eu. Aliás, ninguém tem exactamente a mesma visão do mundo que outra pessoa.

Na 2ª posição, eu sou o outro, vejo o mundo como ele vê, com a sua experiencia, a sua memoria e as suas sensações. Na 2ª posição perceptual, eu desenvolvo a minha empatia pelo mundo do outro, pelo seu lugar.

Hum... isto é muito bonito mas... como posso eu saber o que o outro sente?
A chave está em copiar o melhor que podemos o seu olhar.
Vou explicar melhor o que quero dizer com “copiar o seu olhar”.

Começo por observar a cara, o corpo e a postura do outro. Copio apenas internamente, usando a minha imaginação.

A minha avó estava assim, torcia as mãos, levava os olhos de lado a lado, como que à procura de algo. Apertava o lenço, zangada.

Depois, fecho os olhos e volto a abrir, e vejo o mundo como se fosse ele. E de repente, puff, estou na 2ª posição!

A 3ª posição observa a situação de ambas as partes de forma independente, sem envolvimento.

Também tenho um truque para esta! Imagino que sou uma mosca e que estou no canto da sala, lá no alto, a ver o que se passa aqui. Descrevo a rapariga que vejo (que sou eu) e quem mais está com ela. Observo mais uma vez as suas caras, os corpos, as posturas. Para onde olham, no que tocam, que tom de voz usam...

Nessa tarde eu via uma senhora muito velhinha, agitada, preocupada, um pouco zangada até. E uma rapariga nova que repetia Não, Não, Não, por vezes com alguma impaciência.

Um dia aprendi que há estas 3 formas de ver o mundo, e foi naquela tarde que entendi o que queriam dizer.

Filha, o Zé e o avô José Homem?
Estão de viagem minha querida, ligaram há pouco, só voltam tarde...
Ah que bom!

Não foi uma mentira que eu lhe disse. No mundo da minha avó era possível ser assim. E ela não perguntou mais. Nessa noite comeu bem, dormiu descansada, e até ao dia em que o coração dela parou não voltei a dizer “Não avó”, disse-lhe que sim a quase tudo, e vi como isso a fez feliz.

E vocês, já experimentaram o lugar do outro?

18 janeiro 2011

Se lhe saísse o euromilhões ia trabalhar na 2ª-feira?


Nos últimos tempos vivo este dilema, não porque me tenha saído o Euromilhões (era bom!) mas porque após um período semi-sabático é agora importante para mim voltar a um trabalho "estruturado", por assim dizer, e quero encontrar algo que me faça feliz! Procuro um trabalho onde possa responder a esta pergunta com um convicto sim! Mas como saber que trabalho é esse?

Sempre que tenho um problema procuro ferramentas para o solucionar.
Se tenho um problema, vou ter também pelo menos uma solução!

Nos Estados Unidos encontrei algumas ferramentas para esta busca, nomeadamente, na pessoa de dois cientistas que estudam um ramo da Psicologia chamado Psicologia Positiva. Em oposição à Psicologia dita "tradicional" que estuda comportamentos desviantes depressões, doenças, mal-estar emocional, etc, a Psicologia Positiva estuda o que nos faz felizes.

Martin Seligman dirige o departamento de Psicologia Positiva da Universidade de Pennsylvania. E dirige também um site ligado à universidade chamado Authentic Happiness, Felicidade Autentica.

Nesse site encontrei 3 descrições, 3 formas de estar no trabalho.

Um trabalho pode ser principalmente para ganhar dinheiro suficiente para viver. Quem tem um trabalho assim e ganha o euromilhões despede-se no próprio dia e vai fazer outra coisa, algo de que gosta realmente. Este tipo de trabalho é uma necessidade, como respirar ou comer. O tempo passa devagar num trabalho assim, e vive-se em antecipação do fim de semana e das férias. Se voltasse atrás, quem tem um trabalho assim faria outra coisa, não recomenda o seu trabalho a ninguém, e só quer reformar-se rapidamente.

Eu chamei a este trabalho um emprego. Conhece alguém que tenha um trabalho assim?

Outra forma de encarar o trabalho mostra-nos alguém que gosta do que faz mas não conta estar ali daqui a 5 anos. O plano é mudar de trabalho para algo melhor. Há partes do trabalho que são uma chatice, mas é importante fazer tudo bem, sempre com um olho no objectivo de ser promovido, crescer profissionalmente e atingir os objectivos estabelecidos, essa é a medida do sucesso. Quem tem um trabalho assim e ganha o euromilhoes compra a empresa onde trabalha para ser chefe dos outros!

Eu chamo a isso uma carreira. Conhece alguém que tenha uma carreira?

À 3ª forma de trabalhar descrita no site Felicidade Autentica eu chamo vocação. Para quem encontrou a sua vocação o trabalho é a parte mais importante da sua vida! O trabalho é vital e definidor, as fronteiras entre a vida pessoal e profissional são difusas porque os amigos são colegas, e os colegas são amigos, e as férias também são momentos para trabalhar. Quem encontrou a sua vocação trabalha por gosto, recomenda o seu trabalho a todos e qualquer um e se ganhasse o euromilhoes iria sem duvida continuar a trabalhar na 2ª-feira!

Ao ler estas 3 definições senti-me afortunada por poder dizer que nunca tive um emprego, já tive uma carreira e apercebo-me de que o que procuro hoje é a minha vocação!

O segundo cientista que me ajudou nesta busca é húngaro e chama-se Mihaly Csikszentmihalyi (Lê-se Mirroi Tchic-sent-mirroi - sim, Mirroi duas vezes!). Mirroi trabalha na Universidade de Claremont em Nova Iorque e tem um projecto chamado “The Good Work Project”. E o que é isso do “bom trabalho”? Mirroi define o bom trabalho como trabalho que é excelente em qualidade, socialmente responsável e significante para quem o realiza.

Excelente, responsável, significante.

Ao perguntar-me se o meu trabalho no passado era tudo isto? Se era excelente, socialmente responsável e significante para mim, encontro respostas um pouco mistas...

Eu estudei Gestão na Universidade Nova de Lisboa e tive oportunidade de trabalhar na Unilever, na Sonae Sierra e numa empresa mais pequena, menos conhecida, de entretenimento, e tecnologia móvel, a TIMw.e. 

Considero que trabalhei em empresas muito boas, onde o trabalho era feito com qualidade. Tecnicamente cresci e aprendi muito por onde passei sobre o mundo dos negócios, das vendas e do marketing. Posso por isso dizer que fiz trabalhos de qualidade.

Por outro lado trabalhei em empresas e rodeada de pessoas responsáveis e preocupadas com o impacto que o seu trabalho tem no mundo (pelo menos a maior parte das vezes).

E gostei do que fazia, do meu dia a dia.

Mas, trabalhei sempre produtos que não são significantes para mim. Na Unilever trabalhei Margarinas – Vaqueiro passando a publicidade. Mas eu cozinho com azeite. Nunca compro margarina, nem passei a comprar.
Na Sonae Sierra o produto eram Centros Comerciais. Uma vez mais, sou cliente quando tem de ser, se tenho pressa e está a chover nada melhor do que as Amoreiras, mas caso contrario prefiro ir passear para o Chiado.
E na TIMw.e. vendi Toques para Telemóveis, até começar a trabalhar na TIMw.e. tinha feito um único download para o meu telemóvel e depois de sair não fiz muitos mais.

3 empresas, 3 produtos que para mim pessoalmente são pouco significantes. Não quer dizer que não sejam significantes em geral e para muitas pessoas, simplesmente não o são para mim. Não é de admirar portanto que ao fim de algum tempo eu me sentisse insatisfeita e com vontade de procurar outra coisas.

Faltava-me e ainda me falta hoje significado para poder chegar àquele trabalho que procuro, que acredito me fará realmente feliz, e a que vou chamar uma vocação.

Usando estas 4 definições de trabalho estou neste momento a dirigir a minha busca. Baseando-me nelas, especialmente na definição de vocação estou a olhar para o que faço nos meus tempos livres, de onde vêem os meus amigos, olho para o que acredito ferverosamente, defendo e recomendo, e de que maneira esse lado pessoal da minha vida toca com o que foi até agora a minha carreira.

Hoje ainda não tenho uma resposta final, mas tenho um caminho.

E o leitor? Se lhe saísse o euromilhões ia trabalhar na 2ª-feira? 

09 novembro 2010

Tolerância



Esta semana decidi não trabalhar com um potencial fornecedor que falhou um deadline bastante simples 3 vezes consecutivas. Infelizmente tive de lho dizer por email porque o telefone estava desligado, e recebi de resposta a frase "Penso que a tolerância tb é uma qualidade."


Fiquei a pensar nisto... tolerância... tolerância é uma qualidade... Sim, estou de acordo, a tolerância é uma qualidade!  No entanto, apercebo-me agora, talvez uma qualidade que sobre-valorizamos e da qual abusamos em Portugal.

Durante os últimos meses acompanhei bastante de perto as lutas de um empreendedor com a "tolerância" portuguesa: propostas que chegam com semanas de atraso, emails sem resposta, chamadas que não são devolvidas.  Falámos da dificuldade portuguesa em dizer "Não". Não posso, não tenho os recursos, não quero participar no projecto, não tenho as competencias, não me dá jeito. Eu própria, admito, já o fiz, deixar coisas sem resposta porque não me apetece dizer não... 

Mas agora que a porta está a torcer o meu rabo de recém empreendedora, não posso deixar que isto aconteça, nem com fornecedores, nem aos meus futuros clientes.

"Ah desculpe o atraso é que estou cheio de trabalho!" 

Ainda bem! Haja trabalho e para todos! Mas nesse caso, se não se importa, vou dar trabalho à concorrência que se calhar eles têm falta de clientes. :)




11 maio 2010

O Caminho

Viajei muito nos últimos 5 anos. Conheci a Ásia, a América Latina, percorri cidades Europeias. Deparei-me com o facto de que a primeira coisa que faço quando chego a um sitio novo é caminhar, perder-me nas ruas, jardins, praças, descobrir os bairros, sem mapa, sem objectivo definido.  Perco-me para encontrar a cidade. Perco-me para me encontrar na cidade.


Encontro refugio em momentos de reflexão silenciosa. O silêncio liberta-me, acolhe-me, conforta-me. Encontro para além das palavras, nas sensações, aquela que creio ser a minha essência. Em silêncio ligo-me à verdade, à intimidade, àquilo que é mais nuclear no meu ser.

Caminhar em silêncio é o que me move para o Caminho de Santiago.

Vou caminhar onde milhares, milhões de peregrinos caminharam ao longos dos séculos. Vou deixar que a energia de milhares de preces, de intenções, milhares de esperanças, dons, verdades, interiores penetrem em mim em cada passo que der. 

Dizem que não há maior sorte do que descobrir para que estamos aqui e cumprir a nossa missão.
Não sei ainda o que me trouxe cá, a este aqui e agora, com este nome e este corpo, e com estes dons.
Reconheço em mim um acesso à vida interior e a capacidade de o expressar, num diário, numa conversa, num blog, mas falta-me um sentido de propósito, a certeza de que é por aqui! Vamos!

Procurarei no Caminho o meu propósito, a minha ligação e este tempo, a este lugar, o grande amor, a grande libertação do meu ser interior, a sua expressão, sempre sabendo que as respostas estão dentro de mim, o Caminho será apenas um catalizador.



16 fevereiro 2010

Grito!!!

Vou voltar atrás e mudar o meu passado, vou amar a criança que sobreviveu. Além de olhar as cicatrizes, de lhes tocar, de lhes dar nomes, de as analisar, vou fazê-las desaparecer com o amor que agora me enche. Vou mudar o meu passado para mudar o meu futuro, vou abrir possibilidades, vou abrir as asas e vou ser livre!

15 fevereiro 2010

O meu Principe Encantado

Tem 1,90m e as costas tão largas e fortes que posso encostar-me a ele como se a uma parede, e sentir-te pequenina e segura alia encostada. Envolve-me com os seus braços, segura-me com as suas mãos ossudas e fortes, pousa o queixo no meu cucuruto e ficamos assim... até ele se mudar para o meu pescoço, que beija com paixão e ternura.

O meu principe encantado não tem a mania que sabe cozinhar, lá em casa quem cozinha sou eu e ele arruma e põe a mesa e trata da roupa e leva e tráz e põe, sem eu ter de lhe pedir nada.

Ás vezes acorda-me com beijos nas costas e ficamos horas infindas na cama.
Amamo-nos, queremo-nos, desejamo-nos.

É inteligente, muito mais do que eu, tem sempre alguma coisa para me ensinar. É trabalhador, honesto, eficaz e organizado. É respeitado, é um lider natural. Fala pouco e baixo, mas todos param para o ouvir. Ele é um homem bom!

É atento a todos os sinais que lhe dou. Recorda e celebra todas as datas importantes e surpreende-me constantemente. Nunca se sente criticado pelo meu olhar ou pelo meu silêncio. É dedicado, leal, companheiro, respeituoso, constante, fiável.

O meu principe encantado é lindo, elegante, sedutor e dança lindamente! Segura todas as portas e beija a mão das senhoras velhas que não gostam de beijos na cara. Sabe estar em qualquer situação e até atura a minha mãe.

Há um lado do meu principe que só eu conheço, ele é o segredo mais bem guardado do mundo, é brincalhão e livre mas vulnerável nas minhas mãos. Eu sou a única mulher na vida do meu principe encantado, inquestionada, inquestionavel. O meu principe é a minha base, a minha raiz.

Ele é o espaço onde eu sou livre.

Ver. Ouvir. Amar.

Vejo-te atrás do jornal. Ou melhor, não te vejo, o jornal cobre-te inteiro. É daqueles jornais enormes, à antiga, é o Expresso, imenso. Deve ser muito importante o que lês, absorve-te e não me vês. Sento-me ao teu lado, abro também o jornal, imito-te para me fazer notar. Se me portar bem, se fizer tudo como deve ser, se imitar na perfeição...

Aguardo no escuro um beijo de boa-noite. Aguardo ser reconhecida. Impaciento-me, assusto-me. O escuro é tão frio, denso. Chamo-te mas a minha voz não perfura esta escuridão imensa que me afunda, não chega até ti...

Espero-te nem sei onde... à porta, em casa, sentada na cama, na soleira da entrada. Espero... Nunca sei quando chegarás, se chegarás. Procuro as horas, tenho concentrar-me na televisão, sigo uma formiga a debater-se com os sulcos entre as pedras da calçada. Espero... Espero...

Entro no carro e ouço-te. Desculpa o atraso querida... Este transito! Neste país não há vontade política para nada! Tento. Hoje eu... É só grafitis, delinquentes, cambada de mal-criados! Aguardo outra oportunidade. Hum hum. Pois, tens razão.

Silêncio.